domingo, 6 de fevereiro de 2011

Alice

Sentia, no âmago da sua espinha, que precisava derramar algumas lágrimas pra que tudo pudesse voltar ao normal. Escutara mais cedo algumas palavras que não fizeram muito sentido no momento (nem depois, diga-se de passagem), mas que mostraram à ela que pode existir uma coisa muito além daquilo que se é, e que talvez ninguém consiga entender aquilo, mas  o sentido que isso faz pra quem o fez é algo que só quem fez poderá entender.
Acreditava que isso já não mais merecia sua atenção. Pensava agora em como os cabelos laranja do amigo eram realmente bizarros. Não que ela tivesse propriedade para desaprovar o gosto capilar de qualquer pessoa, mas achava realmente muito esquisito uma pessoa de quase meia idade querer esconder os sinais (inevitáveis) do tempo com uma tintura para cabelos laranja!
Voltou seus pensamentos para ele. Não conseguia entender quão profundo poderia ser seus sentimentos! Desconhecia aquela sensação. Vivera pouco em relação aquilo. Era sonhadora: imagina seu grande amor, a grande declaração como se estivesse num filme meia boca de romance [desses que passam quase todo dia na madrugada, onde do nada o protagonista pega um microfone e, sem saber cantar, arrasa no vocal com uma linda canção de amor sendo ele acompanhado por toda uma praça, onde pessoas, que saem não se sabe de onde, tocam instrumentos de diversos tipo e segundos depois são meros transeuntes aparentemente normais, sem quaisquer habilidades extraordinária de canto e dança.
Parou de pensar simplesmente. Ou pensou que parou. Fazia agora um metapensamento. Pensava sobre o próprio pensar, sem os aforismos e viagens de filósofos que tanto odiava estudar. Estudava porque era preciso, mas odiava cada maldita palavra saída da boca de cada maldito autor de cada maldita era. Odiava o mundo agora. Dois segundos depois, o amava novamente com uma intensidade indescritível. Sofreu por mais alguns segundos só por pensar na Bomba atômica e no cachorrinho que havia atropelado sem querer em frente ao parque. “Sim, foi sem querer”, pensava ela. Afinal de contas, ele passou em frente ao carro sem olhar para os dois lados antes. Acreditava que toda mãe que era realmente mãe, ensinava ao filho que ele tem que olhar para os dois lados antes de atravessar a rua! Que absurdo! Mas talvez aquele pobre cachorro não tivesse mãe. Talvez, ela tenha sido a maior cachorra do mundo e tenha abandonado aquele pobre filhote às mazelas que o mundo pode oferecer. Mas pensando assim, a culpa seria dela, e não mais do cachorro que atravessa as ruas sem olhar para os lados. Ela que não olhou para frente enquanto ia atravessar uma faixa de pedestres. Ironias da vida: o cachorro estava na faixa de pedestre, curiosamente...
Voltou seu pensamento a ele e em quando ia tomar coragem de dizer tudo que estava engasgado e guardado a sete chaves. Sabia que aquele poderia ser o último dia da sua vida, ou o penúltimo, não importava! Tinha certeza de que a qualquer momento iria morrer, só não tinha certeza de que momento era esse. Podia ser agora e...e levou a mão no rosto para coçar o nariz. Era a mãe com uma pena de ganso lhe fazendo cócegas para indicar que o dia amanheceu e que era hora de acordar para ir a escola...

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