domingo, 13 de fevereiro de 2011

Nem tudo é o que parece

Estavam no carro, lado a lado. Ele, impaciente e com suor no rosto, apertava a buzina como se aquela fosse o dedo da mãe de uma criança que acaba de descobrir o que é o apertar. Ela, atrapalhada como sempre, tinha a bolsa aberta no chão do automóvel. Seus cadernos estavam apoiados nas pernas, cobertos por uma toalha. Ali, ela tentava pintar as unhas. Sim, pintar as unhas  em um carro em movimento.
Nem tanto movimento assim: a rua era estreita e o sinal estava fechado. A distância de um carro para outro era certa para a lei.
Os dois permaneciam em silêncio. Não estavam brigados ou chateados um com o outro. O silêncio provinha da distração: ele pensava em como é que poderia existir uma rua tão estreita como aquela, no por quê das pessoas escolherem passar justamente por ali naquele mesmo momento que ele e,  principalmente, em como o sinal vermelho tinha a capacidade de demorar tanto tempo para ficar verde. Ela cantarolava mentalmente uma canção que aprendera mais cedo.
O sinal continuava fechado. O semblante dela estava calmo, quase expressava uma felicidade por estar a um triz de finalizar aquela tarefa que, aos seus olhos, nada tinha de fútil. Ao contrário, era uma atividade que exigia muita concentração, força de vontade e coordenação motora (aliás, aspectos que quase inexistiam nela). O dele demonstrava sinais cada vez mais irritados decorrente do calor e do barulho que aquela longa fila de metal [não] andante fazia. A irritação aumentava à medida que sentia a gota de suor escorrer por sua testa, descer  pelos seus olhos e finalizar em seu pescoço.
Finalmente o sinal abriu. Ela nada percebeu além de seu [quase]perfeito trabalho com as unhas. Ele exibia um meio sorriso de quase satisfação por sair daquele mormaço e aliviar o calor com o vento que entraria pela janela.  Entraria. Não entrou porque o carro da frente freou bruscamente.  Pela distância, ele conseguiu frear, felizmente. Infelizmente, quem não conseguiu frear foi o motorista do carro que estava atrás.
 Ele se espantou, limpou mais uma vez o suor da testa, fez carão. Pensava seriamente em sair do carro com o extintor e quebrar o vidro do infeliz que ia atrasar seu destino e o fazendo ficar mais tempo sob aquele sou torturante! Abaixou a cabeça sobre o volante por um segundo e a ao levantar, lembrou que não estava sozinho no veículo. Olhou para o banco do passageiro e se deu conta que ela não estava lá. Nem o extintor.  Virou os olhos para fora e lá estava ela esbravejando impropérios que uma pessoa pode conhecer durante toda uma vida promiscua.:
- Filho d’uma puta! Minha unha!! Minha unhaaa!!!

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